domingo, 9 de setembro de 2012

Ao censurar os magistrados a im­prensa busca o efeito desejado por ela.


Nilo Batista lembra a “atitude pública” que a imprensa se atribui, muitas vezes camuflando “afinidades políticas”, como é o caso de agora, ou “interesses econômicos”. Ele cita um julga­mento, de 1951, nos Estados Unidos, que levou o juiz Jackson, da Corte Suprema (na qual os in­tegrantes se identificam orgulhosamente como juizes), a afirmar: certos julgamentos não passam “de uma cerimônia legal para averbar um veredicto já ditado pela imprensa e pela opinião pública que ela gerou”.

 “Mensalão”, julgamento justo? -  Por Mauricio Dias, da CartaCapital

Sob controle rígido, concentrado, de apenas quatro grupos empresariais, a mídia brasileira conservadora acre­dita ter força para erguer e destruir o que bem pretende. Esse núcleo res­trito, que sustenta um pensamento único, for­ma o que se chama de barões da mídia. Eles, no entanto, nem sempre conseguem impor os ob­jetivos que perseguem. Estas situações cabem direitinho dentro do princípio de que as regras comportam exceções.

Exceção, por exemplo, é a eleição e reeleição de Lula. E a regra? Ela está posta agora diante dos nossos olhos: a Ação Penal 470, chamada de “mensalão” para efeitos políticos, em julgamen­to no Supremo Tribunal Federal (STF).

Regra e exceção. Esta contraposição emer­giu em declaração do ministro Ricardo Lewandowski. Diante da reação negativa às revisões feitas no relatório do ministro Joaquim Barbo­sa, aplaudido pela mídia, ele desabafou:

 “Um juiz não pode ceder à opinião pública e nem à opinião publicada”.

O voto “dissidente” de Lewandowski surpre­endeu, para repetir o verbo usado na manche­te do jornal O Globo. O revisor absolveu alguns réus. Por não ter condenado todos entrou na li­nha de fogo. Foi intimidado por um comentaris­ta político, para o qual telefonou de boa-fé com a finalidade de explicar o que considerou distor­ções na análise feita em torno do voto dele. Dias Toffoli, que acompanhou o revisor, também re­cebeu reprimenda de um colunista social.

A mídia, a exemplo do ministro Joaquim Barbosa, reage às divergências com a linha editorial que adota com a mesma ferocidade dos reis diante de crimes de “lesa-majestade”. Essa reação não é nova, nem é invenção bra­sileira. Por aqui, no entanto, às vezes a coisa torna-se grotesca.

Em parecer para processo em curso na Jus­tiça mineira, tirado da costela da Ação Penal 470, o advogado Nilo Batista, do primeiro time de criminalistas brasileiros, tocou nessa feri­da. Entre outros pontos, atacou o “linchamen­to moral” quando a acusação de suposto crime, amplificado pela mídia, provoca “devastadores efeitos sobre a imparcialidade do julgamento”.

Nilo Batista lembra a “atitude pública” que a imprensa se atribui, muitas vezes camuflando “afinidades políticas”, como é o caso de agora, ou “interesses econômicos”. Ele cita um julga­mento, de 1951, nos Estados Unidos, que levou o juiz Jackson, da Corte Suprema (na qual os in­tegrantes se identificam orgulhosamente como juizes), a afirmar: certos julgamentos não passam “de uma cerimônia legal para averbar um veredicto já ditado pela imprensa e pela opinião pública que ela gerou”.

O criminalista, professor-titular de Direito Penal da Universidade Fe­deral do Rio de Janeiro (UFRJ), ci­ta outro processo. Este anulado pela Corte Suprema em razão da campa­nha da mídia quando foi afirmado: “A publicidade do julgamento é uma garantia constitucional do acusado e não um direito do público”.

Ao censurar os magistrados a im­prensa busca o efeito desejado por ela.

A absolvição ou a condenação dos réus, entretanto, deve nascer de um julgamento justo, sem pressão ou interferência na liberdade de de­cisão dos juizes.

Paulo Cavalcanti

In dubio pro reo

A vida apareceu - Janio de Freitas

Superada a excitação em torno do que seria o voto de despedida de Cezar Peluso -se abrangente, ou não, de todos os réus do mensalão- já está em campo outra charada.

Talvez um artifício involuntário dos que precisam acompanhar a insipidez do julgamento, mas não aguentam, sem algum desvio inocente, o tédio de tanto "voto eminente" e "brilho de Vossa Excelência".

"E se houver empate, agora que a aposentadoria de Peluso reduziu o time dos julgadores a dez?"

O condutor do julgamento e presidente do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, dá uma resposta original: "É uma pergunta sem resposta".

Poderia dizer que uma das respostas cabíveis é o desempate com o chamado voto de minerva, dado por ele mesmo. Solução que ficaria muito bem na maneira como o julgamento transcorreu até ontem, aceitas várias práticas inesperadas.

Pela primeira vez, ontem, as circunstâncias vividas por um réu, na conduta de que é acusado, foram consideradas com a devida importância na apreciação dos fatos e no voto de um ministro, para condenação ou absolvição.

Embora composto por magistrados sempre prontos a expor seu lado humano (nem sempre de modo apreciável), se sensibilizada a sua vaidade, o julgamento mais parece ocupar-se de réus mecânicos, todos robôs da patifaria.

O risco resultante dessa característica do julgamento não recai apenas sobre os réus, na eventualidade de menor compreensão dos fatos e das culpas ou inocências.

A variação dos discursos jurídicos não isenta também os magistrados de se mecanizarem eles próprios, de se robotizarem, no seu poder de ignorar a vida e conceber seres-objetos.

No primeiro dos votos pela absolvição de Ayanna Tenório, (ex-)funcionária do Banco Rural, o ministro-revisor, Ricardo Lewandowski, valorizou tanto os fatos quanto as circunstâncias que a acusada viveu neles. Não o fez por acaso, mas com intenção declarada. A vida se imiscuiu no julgamento.

Um ser-objeto virou uma pessoa, assim reconhecida também, pouco depois, pela ministra Rosa Weber. Ainda que a absolvição carregasse uma ressalva, cuja oportunidade excedeu o voto: "In dubio pro reo", lembrou a ministra para justificar-se de não encontrar motivos seguros de condenação.

Na justificativa de Rosa Weber estava a resposta adequada para o desempate de votos, em um tribunal não robotizado em sentido algum. O empate retrata um tribunal posto em dúvida, e um princípio de Justiça que os milênios não negaram é este: "In dubio pro reo".

O empate tem resposta, sim, pelos juízes que não a receiem.

Joaquim Barbosa: O Herói que Nem Sempre Foi...


 
POR CLÓVIS GRUNER

 

Joaquim Barbosa, do STF, virou o novo herói nacional. Ainda esta semana, no Facebook, me deparei com dois 'posts' a tecer elogios ao ministro - em um deles, ele é comparado ao Batman e, claro, ganha de lavada. Em outro, elogia-se sua biografia, de rapaz humilde a jurista reconhecido e fluente em três ou quatro idiomas.

Mas nem sempre foi assim. Quando indicado em 2003, pelo então presidente Lula, os mesmos veículos que hoje colaboram para construir e solidificar sua imagem heroica não cessaram de martelar as muitas razões de sua indicação e, segundo as versões apregoadas à época, elas nada tinham a ver com sua hoje propalada competência jurídica.

Além da acusação velada de que Barbosa apenas preenchia a "cota racial" do judiciário, havia outras, para todos os gostos: Joaquim Barbosa foi acusado de ser petista; de ter sido escolhido pela cor da pele e não pelo mérito; de faltar ao trabalho repetidamente; de deixar os processos amontoarem, inviabilizando a rotina do STF, etc.

 

Mas, ao que parece, ter sido "duro" com os mensaleiros fez com que este passado comprometedor" fosse rapidamente apagado e esquecido. E a mesma imprensa e os mesmos jornalistas que o tomaram por Darth Vader, são hoje os responsáveis por sua repentina heroicização. Não sei vocês, mas não me surpreende.

 

A matéria do link abaixo, publicada pelo Estadão em 2010, é só uma pequena mostra da agressividade da imprensa brasileira contra Barbosa em tempos outros. Mas, e falo como historiador e ex-jornalista, é também um belíssimo exemplo de como o discurso jornalístico é político e politizado; e de que nossas escolhas e percepções não são neutras, mas orientadas também por estes mesmos discursos.

 

Ah! E eu ainda prefiro o Batman: afinal, a jornada do homem morcego foi mais árdua que duas ou três capas dos jornalões e alguns elogios em blogs de direita. E espetáculo por espetáculo, prefiro a DC aos jornalões tupiniquins. Os primeiros são muito mais competentes.

 

Vejam a matéria do Estadão.

 


 


 

Opinião dO Cachete:

Imprensa comprada e tendenciosa... Povinho esquecido e idiotizado pela imprensa... Estou torcendo pelo início das vendas de passagens para Marte.

Joaquim Barbosa, o Torquemada do Supremo

Luis Nassif

Joaquim Barbosa, relator do mensalão:

 “Não sou de dar satisfações, até porque acho que o Supremo não tem de dar satisfação alguma. Mas esse processo foi feito com total transparência. Os atos que pratiquei nesse processo poderia classificar até de muito generosos”.

Levará tempo para que o Supremo apague da memória geral a imagem dele próprio, projetada pelo anjo vingador, Joaquim Barbosa. Tenho para mim que a história registrará sua participação como o Torquemada, o condenador implacável, o justiceiro sem nenhuma sensibilidade para com pessoas que estavam sendo julgadas. O homem que aboletou-se no cargo e, a partir daí, passou a valer-se dele como revanche da vida. Um vingador a quem o sofrimento, as humilhações pelas quais passou no início de vida, tornaram-no mesquinho, ao invés de um vencedor generoso.

Não me refiro à condenação de Katia Rabello e outros dirigentes do Banco Rural, justamente condenados com base em sua participação objetiva nas tramoias. Mas na maneira como Barbosa quis a todo custo executar a vice-presidente Ayanna Tenório

Ela foi absolvida por 9 votos a 1 por uma corte implacável. Nove Ministros, dos quais 7 com propensão a condenar, que nada viram que pudesse comprometer a executiva. O único voto pela condenação foi de Joaquim Barbosa.

A sanha de afirmação política do STF e do Procurador Geral da República, até então, não tinha poupado ninguém. Colocaram quase 40 pessoas no mesmo pacote e passaram a se lixar para as culpas objetivas de cada um. Em uma guerra por espaço político, entre o STF, a PGR e o PT, sobraram balas perdidas, matando quem estivesse no caminho, mesmo que não fizesse parte da disputa.

Ayanna foi o primeiro sinal de que não haveria execução sumário de todos os envolvidos pela sanha do Procurador Geral. Não foi outro o motivo que levou meu colega Jânio de Freitas a escrever, em sua coluna de hoje, que finalmente o STF tinha descoberto que existiam pessoas, seres humanos sendo julgados.

Dentre todos, nenhum magistrado foi tão insensível quanto Joaquim Barbosa. Arrogante até a medula, atropelando princípios de direitos individuais, chegou a interromper colegas que defendiam a inocência da executiva, para alardear que ela estava recorrendo a malandragens para se safar.

Um paradoxo: o grande homem, enquanto lutava para vencer preconceitos e dificuldades produzidas pela vida; uma figura mesquinha, quando chegou ao topo.

Atuais ministros do STF foram eleitos por quem deveria estar sob julgamento

Por: Helena Sthephanowitz, especial para a Rede Brasil Atual

Que o julgamento do chamado "mensalão" é também político, os fatos falam por si e não exigem “provar a prova”, como disseram os próprios ministros do STF.

Eis as principais provas de ações e decisões políticas que permeiam a conclusão da Ação Penal 470:

1. desmembramento apenas dos casos dos mensalões do PSDB e do DEM;

2. o "furar a fila", ao julgar primeiro o que aconteceu depois;

3. marcar o julgamento para coincidir com o calendário eleitoral, desgastando um partido e poupando o outro;

4. a mudança de postura jurídica, com o abandono das garantias constitucionais clássicas, para condenação baseada em indícios, sem provas robustas.

Se o processo é político, então há correlação de forças, e as forças dominantes estão sendo demotucanas, pois estão sendo os beneficiários das decisões políticas tomadas pelos magistrados.

Aliás, o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG), principal réu do mensalão tucano, está levando vantagem não só em ganhar tempo, inclusive para prescrição, mas também sua defesa estará melhor preparada, se o caso vier a ser julgado a tempo, assistindo a este julgamento atual. Vendo como estão sendo tomadas as decisões, os advogados do tucano têm a chance de adequar seus argumentos e contra-provas para quando chegar a hora de defenderem seu cliente.

Lembremos: Azeredo foi senador de 2003 até 2010, mesmo período em que Lula foi presidente. Durante todo o tempo, o senador foi membro da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, justamente o órgão que sabatina os candidatos a ministros do Supremo, que são todos indicados pela presidência da República.

O ex-presidente Lula indicou sete dos atuais ministros do STF (*) – que só assumem o cargo se forem aprovados pelo voto de cerca de 40 senadores. Logo, não há como simplesmente tirar um nome da manga para o STF, sem que seja assimilável pela maioria dos senadores. É um processo de articulação política prévia e intensa, onde o próprio aval ou veto da oposição pode ser decisivo, principalmente durante o governo Lula, quando o Senado era mais oposicionista do que é hoje.

Lula pode ter desejado indicar nomes que fossem progressistas e independentes, e pode ter respeitado essa independência de poderes, mas em paralelo os próprios indicados se movimentaram para conquistar apoio de senadores, numa espécie de campanha para cabalar votos, o que pode envolver acordos políticos.

Aparentemente, o campo demotucano soube fazer acordos melhores do que os petistas. A não ser que os próprios ministros do Supremo indicados acreditem que foram escolhidos através de um sistema de compra de maioria parlamentar que apelidaram de "mensalão".

 (*) Seis estavam na ativa até a semana passada. Hoje são cinco, depois da aposentadoria de  Cezar Peluso .

Os velhinhos assassinos

Na semana passada, ao ler no site da Folha a notícia “Justiça determina abertura de ação penal contra militares por crimes na ditadura”, atravessou o meu espírito uma reprovação. Já no primeiro parágrafo se anunciava:

 “Militares que atuaram na repressão durante o regime militar (1964-85) responderão a ação penal por supostos crimes cometidos durante a ditadura”.

Por que e como supostos crimes? Não bastam as seguidas e cumulativas provas,  de testemunhas, de documentos, e até entrevistas de réus confessos, para retirar o véu da dúvida? Mas continuava a notícia:

 “A Justiça Federal em Marabá (685 km de Belém) aceitou denúncia do Ministério Público Federal e determinou a abertura de ação penal contra o coronel da reserva Sebastião Rodrigues Curió (foto acima) , 77, e contra o tenente-coronel da reserva Lício Maciel, 82”.  

Depois disso, atravessaram o espírito dois espantos. O primeiro foi ver o quanto o assunto justiça e ditadura havia sido o mais comentado e enviado no site em 30 de agosto. O segundo foi conhecer o gênero e grau de comentários que sob a reportagem se abrigavam, dos raivosos defensores do golpe de 64 aos mais complacentes e pacifistas,  sempre na velha fórmula: para  quê tanta confusão, se tudo é morto e passado?

Não vem ao caso aqui mostrar o paradoxo de quem argumenta que, por um lado, a história da ditadura é ultrapassada, e  por outro, manter a feroz defesa do regime que não mais existe, como se os anos da guerra fria estivessem em uma geladeira. Do necrotério de 1970, talvez. Importa mais agora, entre os comentários cordatos, um apelo que li dirigido aos brasileiros de bons corações, nesta esperta frase:     

 “Um deles tem 77 anos, o outro tem 82. Não adianta ficar prendendo ex-coronel que fez crimes na ditadura civil-militar. Nossa ditadura foi a mais branda da América Latina, não que eu esteja tentando justificá-la, mas ficar revogando a lei da Anistia pra prender velhinhos é no mínimo covardia. Não sabia que a esquerda queria se vingar de vovôs”.

Vovós, poderia ser dito, para ser mais forte a fragilidade dos velhos coitadinhos. Ora, tenho junto a mim um precioso depoimento de uma senhora que teve a sorte de morar no mesmo edifício do coronel Vilocq, quando ele estava velhinho. Quando ele não mais era uma fortaleza de abuso e violência. Os mais jovens não sabem, mas Vilocq arrastou Gregório Bezerra por uma corda, espancou o bravo comunista sob cano de ferro, e esteve a ponto de enforcá-lo em praça pública em 1964. Quanta força contra um homem rendido e desarmado. Pois bem, assim me contou a privilegiada:

Muitas vezes, viu a conversarem, em voz amena e agradável, lado a lado, em suas  cadeiras de rodas, Darcy Vilocq e Wandenkolk Wanderley, que moravam no mesmo edifício e destino. Olhem que feliz coincidência, lado a lado, a ferocidade e o terror. Um, Wandenkolk, ex-delegado, que usava alicate para arrancar  unhas de comunistas no Recife; outro, Vilocq, sobre quem Gregório fala em suas memórias. Pois ficavam os dois companheiros a cavaquear, pelas tardes, na paz do bucólico bairro de Casa Forte.

De Vilocq, a minha privilegiada amiga informa um pouco mais, neste brilho de ironia involuntária da cena brasileira: uma empregada doméstica, no prédio em que ele morava,  dizia que Vilocq parecia um bebê, de tão inofensivo  e pacífico na velhice. A ponto de ela brincar, muitas vezes com ele, dizendo: “eu vou te pegar, eu vou te pegar”. O bebêzinho, o velhinho sorria, já sem a força de espancar com ferro e obrigar um homem a pisar em pedrinhas, depois de lhe arrancar a pele  dos pés a maçarico.  

Para infelicidade geral, os dois bons velhinhos já não mais existem. O que gostava de unhas com pedaços de carne foi para o céu aos 90 anos, em 2002. O que tentou enfiar no ânus de Gregório Bezerra um cano seguiu para Deus aos 93, em março deste ano. Ficou um vazio nas tardes da história onde mora a minha amiga. Como poderá a justiça humana agora alcançá-los? Com quem brincará a boa moça, empregada doméstica?

Pensemos neles, por eles e para a justiça que não lhes chegou, quando olharmos os idosos e respeitáveis Carlos Alberto Brilhante Ustra, David dos Santos Araujo, Ariovaldo da Hora e Silva, Maurício Lopes Lima, Carlos Alberto Ponzi, Adriano Bessa Ferreira, José Armando Costa, Paulo Avelino Reis, Dulene Aleixo Garcez dos Reis. E outros velhos, muitos outros de Norte a Sul do país, que no tempo de poder foram o terror do Estado no Brasil. Eles ficaram apenas mais velhos, os bons velhinhos assassinos.

Por que Haddad dificilmente deixará de ser prefeito de São Paulo

Paulo Nogueira

Haddad

Leio o revelador texto de meu irmão Kiko sobre o fenômeno Russomano. Converso com ele e fazemos uma aposta sobre qual vai ser o novo prefeito de São Paulo.

Não sabia, embora desconfiasse, que a situação de Serra era tão precária dentro do próprio PSDB. Me pergunto: se era tamanha a rejeição a ele entre os próprios tucanos, por que o escolheram? Ninguém imaginava que os paulistanos lembrariam que Serra os largou no meio do caminho quando foi prefeito?

Serra dificilmente escapará da derrota no primeiro turno. Russomano está firme na ponta, e Haddad já encostou, como era previsível. É algo parecido com o que aconteceu, no plano nacional, com Dilma: saiu de baixo nas pesquisas e, com o horário eleitoral, foi crescendo.

Sobrarão, provavelmente, Russomano e Haddad.

É quando a vida tende a ficar mais difícil para Russomano. A presença de Serra, até aqui, o beneficia. Parte do eleitorado que seria tucano rejeita Serra e opta por ele. Sem surpresas: é um rosto relativamente novo, e tem familiaridade com televisão, um atributo precioso na política contemporânea.

Depois é que virão as dificuldades. O PT é um partido articulado e organizado, ao contrário do caricato PRB de Russomano. Haddad é, como ele, uma cara fresca. (O PT acertou ao escolhê-lo em vez de Marta, que cairia na categoria da velha turma botocada de sempre.)

Os eleitores que ficarem com Serra no primeiro turno tenderão a votar depois em Haddad, e não em Russomano, excetuada a minoria mais retrógrada que abomina o PT  – e que tem no blogueiro Reinaldo Azevedo seu porta-voz mais estrepitoso. Tirada essa parcela arquiconservadora, o tucano típico apoia, hoje, iniciativas sociais destinadas a reduzir a miséria. Mais ainda, gostaria de ver o partido agarrar com vigor a bandeira da justiça social. Para este eleitor, a escolha entre Russomano e Haddad será simples.

Por isso, Haddad tende a ganhar, com uma certa folga.

Foi essa a aposta que fiz com meu mano. Ele acha que o apoio dos evangélicos levará Russomano — que  ele e eu olhamos com justificada má vontade, dada sua biografia de demagogo    à prefeitura. Penso que igreja nenhuma é capaz de levar alguém a virar prefeito de uma cidade como São Paulo.

Veremos qual de nós vencerá. Qualquer que seja o desfecho, e estou tão convicto de meu raciocínio que disse a Kiko que escolhesse o que apostaríamos, um Nogueira vencerá.

A equação eleitoral em São Paulo

por Rodrigo Vianna

Há uma semana, escrevi sobre a primeira leva de pesquisas que mostravam crescimento de Fernando Haddad (PT) após o início do horário gratuito na TV. E lembrei que a subida inicial do petista não significava que Lula operaria um “milagre”, levando o candidato a 30% dos votos em duas semanas. Não! É preciso lembrar que Lula, presidente, perdeu duas vezes em São Paulo apoiando Marta em 2004 e 2008.

Outro fato: o público costuma prestar muita atenção aos primeiros dias de horário eleitoral. Depois, fecha os ouvidos, e só vai acompanhar o assunto de novo faltando dez dias pra eleição. O que isso significa? Que Haddad deve continuar subindo, mas de forma mais lenta.

Vai subir de que jeito? Com apoio de Lula, mas também com as figuras de Dilma e Marta na TV. Haddad, que hoje tem baixa rejeição, tende a ser identificado pelo eleitorado – pouco a pouco – como o “homem do PT”. Ele precisa desesperadamente dessa marca. É só isso que pode garantir a ele os votos petistas da periferia que, segundo as pesquisas, Russomano conseguiu conquistar até aqui. Acontece que, na medida em que (re) conquistar votos da periferia, ficando mais “petista”, Haddad tende a ganhar para si a rejeição do eleitorado que detesta o PT e Marta. Em São Paulo, esse sentimento é muito forte.

Resumo da ópera: para ultrapassar Serra e chegar ao segundo turno, Haddad terá que ser mais “petista”. Terá que colar sua imagem às realizações de Marta na periferia. Mas chegando ao segundo turno, a rejeição ao PT tende a empurrar para Russomano boa parte do eleitorado que vai votar em Serra no dia 7.

Ah, mas “o segundo turno é outra eleição” – diz o lugar-comum. Sim. Outra eleição pros dois lados.

Celso Russomano leva uma enorme vantagem tática a essa altura. Ele não precisa se definir – agora – como “petista” ou “antipetista”. O candidato do PRB conseguiu avançar pelo caminho do meio. Agrega muitos eleitores visceralmente antipetistas – que já o enxergam como a melhor alternativa pra derrotar Lula/Marta/PT. Mas também agrega eleitorado tradicionalmente petista que vive na periferia. Conseguiu isso mantendo-se quase amorfo politicamente. Sem fazer marola. Nem sequer esbravejou contra as “picuinhas” entre PT e PSDB  – como fez Chalita. Não. Russomano cresceu aproveitando-se de uma conjunção de fatores: a imagem televisiva de defensor dos consumidores, da fadiga de material do serrismo, a rejeição a Kassab e a opção petista por um candidato desconhecido.

No segundo turno, e só lá, Russomano terá que tomar uma decisão. Será uma outra eleição também pra ele! Se o adversário for Haddad, como considero mais provável, Russomano vai estimular (de forma sutil) o velho conservadorismo paulistano que detesta o PT das “taxas” e das greves. Se o adversário for Serra, pode fazer o discurso de “base aliada” da Dilma, de homem que ajuda a construir o novo Brasil da era Lula, e que vai ajudar a aposentar os tucanos mais atrasados.

A única chance de impedir a vitória de Russomano seria a descontrução pessoal do candidato – desde já. Como ele pouco fala de política, o contra-ataque teria que ser fora da política tradicional. Os vídeos espalhados pela internet, em que ele apalpa moças em velhos Carnavais, parecem seguir essa lógica. Mas, por esse caminho, ninguém vai derrubar Russomano. O machismo brasileiro vai aplaudir – e não renegar – o sujeito que dá suas “apalpadas” numa noite de Carnaval… E cá entre nós, é o fim da picada querer mudar eleição com base num vídeo desses.

Russomano pode ser desconstruído – pelo PT ou pelo PSDB – se a imagem de “campeão da defesa dos consumidores” for arranhada. Ou se ficar claro que ele é um “aventureiro”, sem base para governar. Isso é possível? Não sei. Parece uma tarefa difícil, se levarmos em conta o que as pesquisas indicam: dois terços dos votos em Russomano estão ”consolidados”, é de gente que já o escolheu e não está disposta a mudar.

E Serra? Está morto? Não. Há que se lembrar: na eleição presidencial de 2010, houve um momento em que ele chegou a cair para 21% nas sondagens diárias do IG. D ilma, com 45%, ganhava no primeiro turno. Desencadeou-se então uma campanha virulenta, moralista, contra a petista. Serra não subiu muito. Bastou a ele que Marina roubasse os votos que escapavam de Dilma.

A operação agora é mais complicada: Serra precisa desidratar Russomano e torcer para que Haddad não suba além de 19% ou 20%. Fora isso, precisa manter o eleitorado tucano dos bairros mais ricos – que torce o nariz para Russomano. De que forma? Colando a imagem a Alckmin e FHC (como Serra já começou a fazer), e operando para desidratar Russomano na periferia. Os votos que sairiam do candidato do PRB teriam que ir para Chalita, e não para Haddad. Difícil? Claro. Mas não impossível.

Serra pode ter muitos defeitos. Mas é um homem que luta até o fim. Com as armas que tem. Os jornais amigos estão aí para produzir conteúdo a ser usado contra Russomano.

O sonho de Serra e o pesadelo do eleitor

É possível escolher, em lista razoavelmente variada, a razão para a dificuldade que enfrenta a candidatura de José Serra nesta nova disputa pela prefeitura paulistana. Uma delas: nos últimos 12 anos, ele participou de sete eleições para os três níveis do Executivo – municipal, estadual, nacional – e agora dá sinais de fadiga. Outra: sofre o efeito direto da administração do prefeito Gilberto Kassab, com alta avaliação negativa. O mau desempenho da criatura engole o criador. E não é tudo.

Cada argumento tem, contudo um próprio e específico nível de influência nas dificuldades do candidato tucano. No entanto, o que parece ser o fator determinante são as renúncias movidas pela obstinação de chegar à Presidência. Dois os momentos frustrantes para os eleitores. Ele desistiu da prefeitura de São Paulo em 31 de março de 2006, pouco mais de um ano após ter sido eleito, e entregá-la a Kassab para entrar na corrida presidencial. Sem sucesso. Repetiu a dose, em abril de 2010, quando desistiu do governo estadual para se candidatar à Presidência pela segunda vez. Enfim, está sempre pronto a trocar São Paulo por Brasília. O sonho de Serra, hoje com mais de 40% de rejeição na capital paulista, virou pesadelo para os eleitores.

 “A questão nacional pode contaminar a escolha do candidato a prefeito, mas isso não contamina a escolha do eleitor, que é essencialmente definida por questões locais, pela administração da cidade”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele é um especialista atento às artimanhas do processo eleitoral. E demonstra em Eleições no Brasil – Do Império aos dias atuais (Zahar), que chegará às livrarias nos próximos dias, com documentação rica e inédita, como as atas das eleições das governanças das cidades de Cabo Frio e Paraty no período colonial.

Essas competições eleitorais só sofreram interrupção nos hiatos autoritários entre os anos 1930 e 1945 e, posteriormente, nos 21 anos da ditadura implantada em 1964.

A normalização do processo foi retomada com pleitos locais alternados com as eleições nacionais a partir de 1986. Dessa alternância nasceu uma tese, furada, de influência nacional nas disputas municipais. Há três bons exemplos, no momento, capazes de ajudar a dirimir possíveis controvérsias.

No Recife, o candidato do PT, Humberto Costa, segundo as últimas pesquisas, está marcado para perder. Mesmo com apoio de Lula e de Dilma, carrega o peso de uma administração petista local (prefeito João da Costa) pessimamente avaliada. Perde a disputa para o candidato do governador Eduardo Campos, que tem grande aprovação do eleitorado.

Em São Paulo, onde Serra padece do mesmo mal (o prefeito Kassab) de Humberto Costa no Recife, tanto os tucanos quanto os petistas agem em função do plano nacional. Dilma e Lula, com enorme prestígio nacional, apoiam Haddad. Celso Russomanno, terceira via inesperada que lidera as pesquisas de intenção de voto, poderia ser o vencedor.

Belo Horizonte é o terceiro vetor do jogo no plano nacional. Marcio Lacerda, apoiado por Aécio Neves, é um socialista com plumagem tucana que busca a reeleição. Tem boa aprovação e, até agora, supera o petista Patrus Ananias (apoiado por Dilma e Lula), ex-prefeito e admirado pelos belo-horizontinos.

Dnit tornou-se um nome mal-afamado. Esta é a sigla do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, órgão do Ministério dos Transportes envolvido em suspeitas de  alianças de corrupção tanto com o escancarado mundo político quanto com o fechado mundo  da caserna.

Não por acaso, o ex-diretor-geral do Dnit Luís Fernando Pagot foi chamado a depor na CPI do Cachoeira. Ameaçou falar o que sabia. Porém, ao depor, se calou. Ele lidava com contratos de interesse das empreiteiras, como, por exemplo, a Delta de Fernando Cavendish.

Corre à margem do trabalho rumoroso desta CPI o caso envolvendo o Dnit e o Instituto Militar de Engenharia (IME), em curso na 2ª Auditoria Militar, no Rio de Janeiro. Há seis militares denunciados por crime de peculato em torno de licitações a partir de convênios firmados com  o Dnit, apurado em Inquérito Policial Militar.

Afora esses oficiais, uma parte do problema aponta para o comandante do Exército, Enzo Peri.  Por ter foro privilegiado, a denúncia foi ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Desde então, ao que se sabe, adormece em alguma gaveta.

Trilhas de Pezão

Após empréstimo de 5 bilhões de reais no Banco do Brasil, Sérgio Cabral recebeu há poucos dias do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a informação de que o governo do Rio poderá dispor de mais 7 bilhões de reais em novas operações de crédito. No total são 12 bilhões para investimentos em obras.

Ele abriu uma trilha para a eventual candidatura do seu vice, o peemedebista Luiz Fernando Pezão, em 2014. Cabral pretende deixar o governo e já teria avisado sobre isso à presidenta  Dilma. Isso põe o PMDB e o PT no Rio, hoje aliados, em rota direta de colisão.

Voto: regra e exceção

 Para definir o voto no pleito municipal, o eleitor, em regra, avalia os problemas reais da cidade em que vive e não os problemas nacionais. Por isso, olhando para o universo petista, a  ascensão de Fernando Haddad em São Paulo é a regra. A renúncia de João Paulo Cunha, em Osasco, é a exceção.

O tema “mensalão” não guia a escolha local, mas pode estar sendo um fator importante na  desmoralização da política e, por consequência, nas opções dos eleitores que estão causando  surpresa.

Voo de galinha

 Em Fortaleza, também já há inversão nas pesquisas de intenção de voto. Moroni Torgan  (DEM) perdeu fôlego e dificilmente chegará ao segundo turno diante do crescimento das candidaturas de Roberto Cláudio (PSB) e Elmano de Freitas (PT).

A exemplo de Inácio Arruda (PCdoB), que também disputa a prefeitura, Moroni é bom de  largada e ruim de chegada.

Tucano depenado

Na disputa pela prefeitura de Manaus, pesquisa do Ibope já registra empate numérico, de 29% das intenções de voto, entre a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) e o ex-senador Arthur Virgílio (PSDB).

A diferença é que ela subiu de 17% e ele caiu de 40%. Há pouco tempo, em 2010, Vanessa tomou a cadeira de Virgílio no Senado. Aos 67 anos, este tucano eminente, fundador do partido, se perder esta eleição, corre o risco de ter a sua vida política encerrada  prematuramente.

Já em São Paulo…

 Celso Russomanno parece ter abandonado esse grupo de candidatos de fôlego eleitoral curto. O  porcentual de intenção de voto nele atraiu boas contribuições e já abriu folga no caixa de  campanha.

Russomanno, por isso, encomendou o monitoramento diário da campanha por meio de um  processo telefônico chamado tracking.

E se ele ganha?

 Cavalgando rápido, mas montado em partido nanico, o PRB, a possibilidade de vitória de  Russomanno, sem qualquer experiência administrativa, conduz à avaliação sobre as  possibilidades de governança para ele.

Se eleito, terá muitas possibilidades de fazer coligação e fatalmente será engolido por ela.

Serra ou Haddad?

 Considerando os números do Datafolha – Russomanno 34%, Serra 21% (em queda) e Haddad 16% (em ascensão) –, quem disputará o 2º turno na surpreendente Pauliceia?

A esperança de Serra é a de que esteja no piso de votação. A de Haddad é a de que não tenha  atingido o teto.

PT chegou ao governo, mas não ao poder

Fico imaginando se o STF, hoje, estivesse julgando a compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. À diferença do que ocorre com o processo do mensalão, quando aquele escândalo estourou havia uma quantidade enorme de provas do ilícito.

Era 1997 e o governo tucano, através do então ministro das Comunicações, Sergio Motta, fora acusado de ter subornado deputados daquele Estado para votar a favor da emenda constitucional que permitiu a FHC disputar a própria sucessão em 1998.

Gravações revelaram como o então deputado João Maia (PFL-AC) vendera seu voto. Flagraram aquele e outros deputados confessando que haviam recebido R$ 200 mil do governo federal e outros R$ 200 mil do governo do Acre. O dinheiro usado na operação, segundo as gravações, teria sido providenciado pelo então governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL), e pelo então ministro das comunicações.

Naquele caso, como em outros vários escândalos de corrupção denunciados durante os dois governos de FHC, havia fartura de provas. Contudo, o poder que o governo federal tinha era imenso e nada foi sequer investigado.

No caso específico da compra de votos, nem uma mísera CPI foi instalada. Imaginem a situação, hoje, se o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, tivesse elementos como os que havia no caso da compra de votos para a reeleição de FHC.

Hoje, a Procuradoria e o STF “flexibilizam” direitos individuais para condenar, enquanto que, àquela época, o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, nem sequer se deu ao trabalho de responder aos questionamentos sobre o que faria diante de uma denúncia daquele quilate.

O PSDB, quando governou o Brasil, tinha um poder imenso: no Congresso Nacional passava como um trator sobre a oposição petista, aprovando tudo o que queria, e impedia CPIs e até reportagens na imprensa. FHC chegou a ser flagrado dizendo, nos grampos do BNDES, que o apoio da imprensa a si era até exagerado.

Não se pode defender que qualquer governo tenha o poder que teve o do PSDB quando governou o Brasil – a maioria das desgraças que se abateram sobre o país entre 1995 e 2002 decorreu justamente da falta de contrapesos democráticos ao poder do Estado.

Todavia, a situação inversa, hoje, tampouco favorece a República. A base de apoio dos governos Lula e Dilma no Congresso foi e continua sendo instável e qualquer denúncia fraca gera CPIs, derruba ministros e, após ser alcançado o objetivo político, desaparece.

Ao contrário do que ocorria quando a direita governava o Brasil, os governos do PT atravessaram os últimos dez anos batendo recordes de popularidade, porém sendo fuzilados pelos outros três Poderes: Legislativo, Judiciário e Imprensa (o quarto Poder).

O resultado está aí: nunca antes na história deste país o Supremo Tribunal Federal condenou políticos tendo, para isso, que “flexibilizar” garantias individuais. A história dessa Corte é, justamente, a de ser a instância onde os processos contra políticos sempre davam em nada.

Alguns dirão que é bom o que está acontecendo porque as condenações no âmbito do processo do mensalão “do PT” intimidarão os políticos e lhes mostrarão que, ao se corromperem, se forem flagrados não haverá impunidade.

É uma balela justamente porque outros processos análogos ao do mensalão e que envolvem os adversários do PT estão recebendo, neste exato momento, tratamento inverso. O mensalão “do PSDB” foi desmembrado e engavetado. Muito anterior ao do PT, não há previsão de ser julgado. Além disso, foi miniaturizado pelo desmembramento.

O que cresce exponencialmente no âmbito do inquérito do mensalão, portanto, é o poder da mídia. A pressão que fez e faz sobre o STF enquadrou praticamente todos os ministros daquela Corte, que aceitaram julgar um caso eminentemente político em pleno processo eleitoral.

O que há hoje no Brasil, então, é o completo desvirtuamento da Justiça, de forma que julga políticos com rigor determinado pela filiação partidária, pela opção ideológica e de acordo com os ditames midiáticos.

Dois dos juízes do STF que resistem ao tribunal de exceção que está sendo erigido no mesmo STF são acusados de se corromperem a favor de um partido e de um governo e sequer têm força – ou coragem – para protestar contra o que estão padecendo em termos de detração pública.

Seria muito bom para o combate à corrupção se o tratamento dispensado ao mensalão do PT fosse generalizado independentemente de qual seja a legenda partidária, ainda que caiba discussão sobre garantias individuais que estão em xeque diante da tal “flexibilização” que estão sofrendo.

Contudo, o pior dos mundos vai se materializando. Tudo caminha para que o PT e o governo Lula se tornem exceção em uma história do STF de absolvições muitas vezes suspeitas.

Diante desse quadro, constata-se que o PT chegou ao governo, mas não chegou ao poder. Claro que não seria desejável que tivesse poder como o que teve o PSDB quando governou, pois era grande demais e sem contraponto. Mas o poder débil que tem também não é bom.

O governo Dilma, aliás, politicamente é ainda mais fraco do que o governo Lula, até porque a presidente foge de polêmicas e tenta coexistir pacificamente com o poder midiático cedendo às suas pressões mais decididas.

Muitos se revoltam com a postura pusilânime do governo federal diante dos conservadores e da mídia, mas o fato é que a presidente deve saber onde lhe aperta o sapato, ou seja, sabe que sua base de apoio político no Congresso não é confiável.

Eis que é no Legislativo e no Judiciário que este governo tem seus pontos vulneráveis, mas não por uma razão institucional que valesse para qualquer governo, mas porque a mídia se tornou a bússola desses poderes, que a ela se submetem com temor reverencial.

Se há um lado positivo em tudo que está acontecendo, portanto, é o de revelar a situação político-institucional do país. Haverá que lutar muito, na década que se inicia, para que surja um governo que não se submeta a setores diminutos, porém poderosos, como a mídia.

O Brasil precisa, assim, de um líder político carismático e corajoso que se disponha a enfrentar decididamente essas questões. Contudo, não se vislumbra algum político com capacidade de assumir tal posição.

Em alguma medida, é alentador que o objeto do desejo dos que manipulam o Executivo, o Legislativo e o Judiciário com o joystick midiático não seja alcançado. Até aqui, ao menos, a direita demo-tucana não lucrou eleitoralmente com o julgamento do mensalão.

De forma até surpreendente, a mais vistosa débâcle política está ocorrendo justamente no lado oposto àquele que está na berlinda suprema do STF, com o derretimento lento, gradual e constante da candidatura José Serra, político que se esperava que fosse o grande beneficiário do circo naquela Corte.

A mídia, porém, mantém enorme, imenso, incomensurável poder de manipular as instituições através da chantagem a homens públicos e agremiações políticas que a ela se oponham, chantagem que os ameaça de fazer consigo o que faz com o PT e juízes do STF que a desafiam.

Já o PT, vai ficando provado que conta com o apoio da sociedade, que está ignorando, pelo menos até aqui, a manipulação do julgamento do mensalão. Assim como em 2002, em 2006 e em 2010, os brasileiros seguem dando uma banana à mídia e votando no partido.

Uma vez no poder, governos do PT passam a sofrer o efeito do poder midiático de vetar políticas públicas e dificultar a governança valendo-se de escândalos reais e, sobretudo, forjados.

O drama que se impõe ao país, portanto, é que o STF, ao se converter em tribunal político sob ditames de empresários de comunicação chantagistas e ao tratar desigualmente o mensalão tucano e o petista, faz o país retroceder como nunca do ponto de vista institucional.

O processo civilizatório do Brasil ainda tem muito chão pela frente.

O Brasil não está se desindustrializando

Há crise, mas indústria não está indo embora

Paul Singer

Quem, como a maioria dos adultos, viveu a maior parte de sua vida no século 20 aprendeu que industrialização significava progresso.

Éramos um país atrasado porque vivíamos da exportação de produtos da agricultura tropical. Com a receita dessa exportação, pagávamos produtos industriais importados.

Desenvolvimento era sinônimo de industrialização, pois os países que a lograram eram mais ricos, melhor educados e modelos culturais para os outros, que se desenvolviam mediante a substituição das manufaturas importadas por produtos nacionais.

A grande virada se deu a partir dos anos 1980 com a liberalização do comércio e da movimentação internacional de capitais à caça de superlucros em países dotados de mão-de-obra escolarizada, mas inacreditavelmente barata quando comparada com a força de trabalho nos países do Primeiro Mundo.

Começou então a transferência maciça de plantas industriais dos Estados Unidos e da Europa para os países "emergentes" da Ásia e da América Latina. O transplante industrial levou progresso para os países em industrialização acelerada, mas os grandes ganhadores foram os capitalistas do Primeiro Mundo e seus sócios nos países "emergentes", que passaram a crescer aceleradamente. As grandes vítimas dessa desindustrialização nos países desenvolvidos foram os trabalhadores que perderam empregos e empobreceram nos cinturões da ferrugem. Seus sindicatos perderam membros e foram obrigados a abrir mão de conquistas para evitar o translado das fábricas restantes.

Como é óbvio, nada disso acontece no Brasil.

A grande dificuldade da indústria está na contração dos mercados mundiais em função da recessão nos países da periferia europeia, que estão sendo obrigados a se autoarruinar com políticas de austeridade que punem exclusivamente os pobres, mediante cortes de salários e postos de trabalho no Estado.

Embora o centro da crise esteja na Europa, suas repercussões estão agora atingindo os emergentes até há pouco poupados.

Nada disso acontece no Brasil: a indústria não está se mudando para outros países, pelo que se sabe. A nossa economia cresce pouco por causa da recessão que se aprofunda na Europa e que faz com que a economia mundial se contraia. Recentemente, o "The New York Times" noticiou que "após três décadas de crescimento intensivo, a China está diante de um problema com o qual não está acostumada em sua economia: um acúmulo enorme de mercadorias não vendidas. O excedente de tudo, desde aço e eletrodomésticos até carros e apartamentos, está dificultando os esforços da China para emergir duma desaceleração econômica aguda".

Sendo a China nosso maior parceiro comercial, é inevitável que sua crise também nos atinja. O mesmo aconteceu à Argentina, cujas exportações caíram, o que afeta o Mercosul como um todo, onde a indústria brasileira vendia parte de sua produção.

Ainda bem que nossa indústria conta com um farto mercado interno, que está sendo estimulado por diversas políticas do governo.

A queda dos juros e em breve também do custo da energia elétrica eleva o poder competitivo das empresas. O recente aumento das taxas aduaneiras de cem produtos importados, cuja concorrência ameaçava a existência de importantes ramos da indústria, e um aumento da proteção contra a importação de outra centena de produtos industriais já está programada para outubro.

Em suma, a indústria se encontra em crise contra a qual o governo toma medidas que devem levar a sua superação.

PAUL SINGER, 80, é economista e secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego