por luisnassif em seu site
O conceito da “primavera” foi adotado para descrever países
ou comunidades em que a Internet entrou quebrando barreiras de silêncio.
Nos países de regime ditatorial, a “primavera” significou
romper o controle estatal sobre a informação. Mas em muitos países
democráticos, significou romper cortinas de silêncio impostas pela chamada
velha mídia – os grandes meios de comunicação nacionais.
Nos Estados Unidos, a blogosfera ajudou a romper o sigilo em
torno das guerras do Iraque e Afeganistão. Na Espanha, antes mesmo da explosão
da Internet, os sistemas de SMS (torpedos) telefônicos ajudaram a desarmar a
tentativa de grandes grupos midiáticos de atribuir um atentado à oposição.
Na Argentina, há um conflito latente entre o governo Cristina
Kirchner e os grandes grupos midiáticos. No momento, passeatas tomam as ruas da
cidade do México, contra a imprensa local.
No Brasil, em pelo menos três episódios exemplares a
blogosfera foi fundamental para romper barreiras de silêncio.
O primeiro foi na Operação Satiagraha, da Polícia Federal.
Capitaneados pela revista Veja, a chamada grande mídia se esmerou em demonizar
os agentes públicos, vitimizar o banqueiro Daniel Dantas e transformar Gilmar
Mendes no maior presidente da história do STF (Supremo Tribunal Federal).
Apenas a blogosfera preocupou-se em mostrar o outro lado, o
das investigações.
O episódio terminou com o Opportunity se safando junto à
Justiça. Mas, no campo da opinião pública, poder judiciário, Ministros que se aliaram
ao banqueiro, o próprio banqueiro e Gilmar Mendes saíram amplamente derrotados.
O episódio mostrou os limites da grande mídia para construir ou destruir
reputações.
Várias armações foram denunciadas pela blogosfera, como o
caso do falso grampo no STF, o grampo sem áudio da suposta conversa entre
Demóstenes Torres e Gilmar Mendes, a lista falsa de equipamentos da ABIN
(Agência Brasileira de Inteligência) brandida pelo então Ministro da Justiça
Nelson Jobim.
O segundo episódio relevante foi a promoção do livro “A
Privataria Tucana”, com indícios de enriquecimento pessoal do ex-governador
José Serra. Apesar de totalmente ignorado pela velha mídia, o livro bateu todos
os recordes de vendas do ano.
Agora, tem-se o caso do envolvimento da revista Veja com o
bicheiro Carlinhos Cachoeira. Foram quase dez anos de parceria, que
transformaram o bicheiro no mais poderoso contraventor da república.
Graças às reportagens de Veja, o senador Demóstenes Torres
tornou-se símbolo da retidão na política. Com o poder conquistado, participou
de inúmeros lobbies em favor de Cachoeira e de avalista das denúncias mais
extravagantes da revista.
Veja sempre soube das ligações de Demóstenes com Cachoeira.
Mas por quase dez anos enganou seus leitores, não só escondendo essa relação,
como difundindo a ideia de que Demóstenes era político inatacável.
Na velha mídia, não há uma linha sobre essas manobras, nada
sobre as 47 conversas gravadas entre o diretor da revista em Brasília e
Cachoeira, as quase 200 dele com todos os membros da quadrilha.
Assim como no Egito, Estados Unidos, Espanha, México, França,
é a Internet que está explodindo cortinas de silêncio.
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