segunda-feira, 8 de abril de 2013

Lula indiciado? E agora, PT?


Por Bepe Damasco, em seu blog:

Bertold Brecht, no século XIX : “Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso eu não era negro. Em seguida, levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.”

Pano rápido. Abril de 2013 : será que nem mesmo o provável indiciamento de Lula pela Polícia Federal, a pedido do Ministério Público do DF, será capaz de fazer com que a direção do PT finalmente entenda o que esteve e o que está em jogo no processo do mensalão ? Será que vai cair a ficha dos muitos petistas graduados que, pouco ou nada solidários com os companheiros atingidos pelas atrocidades jurídicas do STF, achavam que era possível virar a página e seguir em frente ?
Remando contra a correnteza, uma parte da militância do PT, blogueiros, twiteiros,jornalistas de pena não vendida ao PIG e respeitáveis juristas vêm desde agosto do ano passado chamando a atenção para o caráter político e visceralmente de exceção da Ação Penal 470.
Alertamos incontáveis vezes para o real objetivo da empreitada que envolve o monopólio midiático de direita, uma oposição derrotada, sem projetos e sem rumos, e setores importantes do MP e do Judiciário : interromper os 10 anos de um projeto que combate a miséria e a pobreza, gera emprego e renda, reduz a praga da desigualdade social, aumenta a renda do trabalhador, mantém aquecido um enorme mercado interno de massas, reinsere o país de forma soberana na cena internacional, enfrenta o rentismo e se nega a permitir que o povo brasileiro pague pela crise internacional gerada pela ganância neoliberal.
Contudo, a cúpula petista e o governo deram de ombros a essa montanha de evidências, adotando uma espécie de republicanismo autista e, sobretudo, suicida. Suicida porque incapaz de perceber que o alvo não era Dirceu, Genoíno, João Paulo e Delúbio, mas sim o PT, sua história e tudo que ele representa. Suicida por teimar em se manter de olhos turvados para o desdobramento óbvio do linchamento público dos réus petistas : os próximos a serem abatidos pela artilharia golpista são Lula, Dilma e o projeto democrático-popular.
Duvido que o bombardeio midiático contra os "mensaleiros" e o PT surtisse tanto efeito na sociedade se o ex-presidente Lula, na condição de presidente mais popular e amado da história do país, tivesse se manifestado sobre o circo midiático montado e a farsa do julgamento. Mas preferiu se calar. Duvido que os comentários das pessoas nos botequins da vida fossem tão desfavoráveis aos réus se a presidenta Dilma, do alto da enorme aprovação ao seu governo, tivesse feito apenas alguns comentários sobre as seguidas violações do Estado Democrático de Direito levadas a cabo pelo Supremo. Mas também optou pelo silêncio. Tenho a convicção também de que se o PT, com toda a sua capilaridade, influência e prestígio na sociedade, tivesse subido ao ringue para o confronto, honrando sua tradição de lutas, a história seria outra,
Ah, mas um ex-presidente da República não pode tecer comentários críticos à atuação do poder Judiciário, dirão muitos. Ah, mas em respeito à independência e harmonia entre os poderes, a chefe do Executivo não pode fazer restrições a decisões da Suprema Corte, dirão outros tantos. Pois lembro que essa mesma dose cavalar na veia de republicanismo levou à nomeação de adversários empedernidos, e de paupérrimo saber jurídico, para o STF e para a Procuradoria Geral da República. Em nenhuma democracia do mundo, nas quais os juízes da Suprema Corte são indicados pelo presidente da República, como nos EUA, acontece a aberração da nomeação de algozes. No Brasil, deu no que deu.
Como militante e jornalista, tive a oportunidade de participar da organização e da divulgação de debates, palestras e protestos contra os rumos tomados pelo julgamento da Ação Penal 470. Em todos esses eventos, percebia-se um fosso entre a indignação das bases e da militância do PT e a postura acomodada, burocratizada e acovardada da cúpula dirigente. Não faltaram, inclusive, apelos ao comedimento (uns mais velados, outros mais explícitos), coisas do tipo : "vocês sabem o que estão fazendo?"
A vida está mostrando quem tem razão.

Postado por Miro

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