Marcelo Neri, economista da FGV
O Brasil se saiu melhor que a China ao combinar crescimento e distribuição de renda, garante o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas.
Por Carla Jimenez
Essa estratégia possibilitou o crescimento da classe C, que hoje soma 105 milhões de pessoas, 133% a mais que em 1993.
Engana-se quem acredita que a classe C quer se encostar num programa social ou ter um cartão de crédito para consumir às cegas. “Ela investe em educação para garantir o futuro”, diz Neri. A classe C, assegura ele, representa um porto seguro para o Brasil. “Eles são o Neymar da economia, só fazem gols, e fortalecem o mercado interno, com mais poder de compra que as classes A e B.” Confira.
DINHEIRO – As empresas no Brasil aprenderam a trabalhar produtos e serviços para a base da pirâmide?
Marcelo Neri – Estão aprendendo, é um processo lento. A classe média, a chamada classe C, cresce mais rapidamente do que as pessoas jurídicas, o governo e os políticos perceberam, e essa ficha está caindo só agora: ela tem mais poder de compra que as classes A e B juntas, ou seja, do ponto de vista econômico, é muito mais importante. É onde está a maior parte do dinheiro do Brasil e, ainda, é a maioria da população. Para os políticos, ela sozinha seria capaz de decidir uma eleição. Assim, começa a ser objeto de empresas, de políticos.
DINHEIRO – Qual é o poder de compra desse grupo?
NERI – A chamada classe C, com renda familiar entre R$ 1,2 mil e R$ 5,3 mil mensais, responde por 46,3% do total de consumo no Brasil, contra 45% dos consumidores AB. Apesar de a classe AB ser bem menos numerosa, ela concentra mais renda, mas, no equilíbrio das forças, é a classe C a dominante. É para esse fato que as empresas, no Brasil, estão acordando. E não só as empresas daqui, mas as do Exterior também, até porque o mundo está estagnado. Quem cresce são os Brics.
DINHEIRO – E como está o Brasil entre os Brics?
NERI – Somos um País que está crescendo, não tanto quanto a China, mas onde a população mais pobre está experimentando um crescimento chinês, porque a desigualdade está caindo. Segundo a pesquisa que conduzimos, “Os Emergentes dos Emergentes”, há pelo menos três anos não existe ninguém mais otimista no mundo que os brasileiros. Numa pergunta para graduar, de zero a dez, a perspectiva “de como você estará dentro de cinco anos”, ninguém, entre 144 países, dá uma nota mais alta que o brasileiro: 8,7. Sem dúvida, é um componente cultural, mas a pesquisa mostra que há razões para essa visão positiva sobre o futuro.
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