Estou nesse ramo tempo suficiente para aprender que as
críticas à política econômica são uma necessidade. Em determinadas
circunstâncias são até bem-vindas, porque o simples fato de alguém estar em uma
situação de “poder” não lhe transfere o benefício da infalibilidade. Nem que,
para o poder incumbente, a eleição por uma eventual maioria lhe confira a
“onisciência” a exigir a sua “onipresença”.
Sempre tive grande admiração pela The Economist, que passei a
ler, semanalmente, desde 1952 na Faculdade de Economia e Administração, a
FEA-USP, graças aos exemplares filados do grande professor W. L. Stevens, a
quem o Brasil deve a introdução da estatística fisheriana.
Cativava-me a clareza dos textos, a imparcialidade (relativa)
e o tom doutoral e provocador dos editoriais. Até hoje a revista se considera,
convictamente, portadora de uma ciência econômica universal, independente da
História e da Geografia.
Criada em 1843, tinha como objetivo fundamental defender a
liberdade de comércio, então em discussão na Inglaterra. Fala, a seu favor, não
ter mudado nos seus 169 anos. É reconhecida como a mais influente revista
econômica internacional. Isso está longe, contudo, de garantir a validade dos
seus conceitos. Se há uma virtude escassa na excelente The Economist é a
humildade: ter, ao menos, uma pequena dúvida.
O deselegante e injusto ataque ad hominem ao ministro da
Fazenda, Guido Mantega, partiu de duas premissas falsas:
1. O Brasil não estava “bombando” no início de 2011. O PIB
caíra 0,3% em 2009 e, por puro efeito estatístico, aumentara 7,5% em 2010. O
crescimento médio de 2009/2010 foi de 3,6%, o mesmo número medíocre obtido nos
últimos 20 anos.
2. O ministro não errou sozinho, quando sugeriu um
crescimento no terceiro trimestre sobre o anterior entre 1,1% e 1,3%. Analistas
financeiros do Brasil e do restante do mundo, inclusive The Economist (por seu
instituto de análises), acreditavam na mesma coisa. O resultado apurado pelo
IBGE (sobre o qual não paira qualquer dúvida de credibilidade) foi mesmo uma
surpresa (0,6%). Isso nos deixa com um problema. Se os inúmeros estímulos
postos em prática produzirem um crescimento de 0,8% no quarto trimestre sobre o
terceiro, o PIB de 2012 será da ordem de 1%, com crescimento per capita nulo.
O baixo crescimento tem pouca relação com as políticas
monetária, fiscal e cambial. Tem mais a ver com uma redução dos investimentos
gerada pela desconfiança exagerada entre o setor privado e o governo. Mesmo com
a -pequena recuperação no setor industrial (que, é provável, continuará nos
próximos trimestres) não tem acontecido nada brilhante para entusiasmar o setor
privado.
Há gente, no meio empresarial, assustada com a forma de ação
do governo, a enxergar uma tendência intervencionista na atividade privada.
Quando acontece esse tipo de dúvida, fica difícil acelerar os investimentos.
Fala-se de quebra de contratos, quando isso não existe: todos
os contratos estão sendo garantidos na energia. O que talvez pudesse ter sido
diferente é a forma como a renovação das concessões das usinas foi tratada:
poderiam, talvez, ter mandado um projeto de lei ao Congresso. Mas todos sabem
ser preciso reduzir as tarifas de energia, claramente sobrecarregadas por
impostos.
A dúvida dos investidores é, dessa forma, muito menos
relacionada à qualidade da política econômica, no âmbito fiscal, monetário e
cambial.
Fez muito bem, portanto, a presidenta Dilma ao rejeitar a
impertinente sugestão da revista para demitir o ilustre ministro da Fazenda do
Brasil!
O comentário presidencial, muito mais para o uso interno, foi
simples e direto: “Não vou tirar o Guido”, sem precisar explicar coisa alguma,
mostrando apenas estar a par dos interesses contrariados, da choradeira nos
mercados financeiros que lamentam o fato de o Brasil não ser mais “o queridinho”
dos investidores-especuladores. Agora é o México, que os anjos o protejam… Como
se devêssemos nos chatear muito com isso…
Não diria que existe da parte da revista algum objetivo
maligno, apenas um ataque muito deselegante, a causar decepção, mas se insere
no espírito provocador que lhe é característico.
No fundo, a crítica procura disfarçar o mau humor de
investidores com o retorno em dólares na Bovespa (-8%) ante os 20% positivos na
Bolsa mexicana. E com o fim da era do ganho fácil e sem risco no Brasil.
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