segunda-feira, 16 de julho de 2012

Não somos imperialistas


A experiência histórica mostra que só os fortes têm o dever e o direito de ser tolerantes 

Por: Mauro Santayana 

Como os fatos políticos evoluem hoje mais rapidamente que no passado, quando esta revista estiver circulando, a situação política do Paraguai e a reação continental ao impeachment do presidente Fernando Lugo estará, provavelmente, esmaecida. O episódio, no entanto, serve para que reflitamos sobre a posição histórica do Brasil em suas relações com os vizinhos, quase todos eles unidos ao país pelas fronteiras terrestres, e todos surgidos da colonização ibérica.
A administração do vasto território e sua defesa contra aventureiros exigem a dedicação integral de nossa inteligência política e de nossa habilidade diplomática
Sempre houve, antes, durante e depois do período em que Espanha e Portugal estiveram sob a mesma coroa (entre 1580 e 1640) quem, em Portugal e, depois, no Brasil, sonhasse com a expansão de nossas fronteiras para além da cordilheira e para o sul da Colônia do Sacramento.
As circunstâncias históricas nos beneficiaram com a soberania sobre a maior parcela do Vale Amazônico, com a sábia declaração de posse feita por Pedro Teixeira, na boca do Rio Napo, em 1637, e a extensão da linha de Tordesilhas, no peito dos bandeirantes, até o sopé da Cordilheira dos Andes, ao oeste. Elas, no entanto, ao nos conferir a maior extensão de terras contínuas no hemisfério ocidental, não nos autorizam a aventuras expansionistas nem a pretensões de hegemonia política sobre nossos vizinhos.
Ao contrário: a administração do vasto território e sua defesa contra aventureiros de fora, que só obteremos mediante a coesão política interna, exigem a dedicação integral de nossa inteligência política e de nossa habilidade diplomática. A experiência histórica nos mostra que só os fortes têm o dever e o direito de ser tolerantes.
Ao contrário das versões históricas paraguaias (explicáveis pelo natural patriotismo de seu povo) e de alguns revisionistas brasileiros, a Tríplice Aliança não foi uma coalizão militar agressiva, mas, sim, defensiva. Os paraguaios, sob Solano López, dispunham de poderoso exército e estavam dispostos a anexar parcela do território brasileiro (ou do Uruguai) que lhes permitisse o acesso direto ao Atlântico. Como primeiro passo, fecharam o acesso brasileiro a Mato Grosso pelo Rio Paraguai e, em seguida, invadiram nosso território, ocupando Corumbá por mais de dois anos.
Houve, sim, uma repressão brutal contra a população de Assunção, por parte do Conde d’Eu, príncipe estrangeiro e genro de Pedro II, mas os brasileiros de Mato Grosso, e os prisioneiros feitos pelos paraguaios, não foram tratados com benignidade pelos inimigos. Todas as guerras, como sabemos, são cruéis.
O grande erro em nossas relações com o Paraguai foi cometido pelo governo militar, ao optar pela construção de Itaipu, bem a jusante do projeto original do engenheiro Figueiredo Ferraz. Com a construção de Itaipu, e a soberania compartida sobre a barragem (e a represa) pelos dois países, passamos a ter nosso destino amarrado ao do Paraguai. Como a população paraguaia é de apenas 6,2 milhões de habitantes, teremos de ser mais pacientes do que a Bolívia – que já enfrentou uma guerra com o Paraguai entre 1932 e 1935, e a perdeu – em nossas relações com a república mediterrânea. Isso explica a posição moderada do Brasil, diante do golpe parlamentar contra o presidente Lugo.
Disso resulta uma lição importante. Nossa solidariedade com os vizinhos não nos permite criar situações que possam conduzir a conflitos de soberania – como é o caso de Itaipu. É conveniente que não realizemos projetos que levem a áreas de administração comum, por menores que sejam. Mesmo as pontes, sobre rios de fronteira, devem ter seus marcos claramente estabelecidos.
E, agora, teremos de fazer da paciência mais paciência, a fim de evitar um conflito maior com o governo que estiver de turno em Assunção, qualquer que ele seja. Mas, no âmbito do Mercosul e da Unasul, temos o dever de atuar conforme os membros dessas organizações regionais, ainda que devamos trabalhar para que o povo paraguaio não pague pela insensatez de seus eventuais dirigentes – como pagou quando López o conduziu para a aventura bélica de 1864, ao invadir o território brasileiro, em retaliação contra a política brasileira no Uruguai.

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