sábado, 31 de março de 2012

Roda Viva aperta arcebispo depois de dar mole a Bruno Daniel Filho


DANIEL LIMA

 A bancada do programa Roda Viva, da TV Cultura, apertou muito mais o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, do que o irmão de Celso Daniel, Bruno Daniel Filho. Assisti aos dois programas. Tenho-os gravado. Aliás, tenho-os gravado, por isso os assisti. Fiquei surpreso com o tratamento diametralmente oposto. Bruno Daniel, despreparado para defender uma causa onírica, fantasiosa, foi apenas levemente acossado por perguntas que testaram a flacidez de seus argumentos. Dom Odilo quase foi hostilizado por alguns membros da bancada.
O mundo está mesmo virado de ponta cabeça porque em situação de normalidade o tom das questões delicadas endereçadas ao representante da Igreja Católica deveria ser menos ácido, enquanto os malabarismos semânticos de Bruno Daniel não poderiam dispensar contraditórios mais vigorosos.
Perguntará o leitor como faço para assistir a tanta coisa assim na TV, já que confesso assídua audiência à novela das nove, ao futebol e também ao BBB que acabou de acabar, felizmente com a execração pública (92%) da entojada Fabiana? O segredo é unir o útil ao agradável, além de planejar o dia para atividades diferentes, complementares e muitas vezes sobrepostas. Por exemplo: ao Roda Viva e a outras programações reservo o tempo que passo pedalando uma bicicleta ergométrica providencialmente instalada em frente ao aparelho de televisão. Um cuidado com o corpo que divido com corridas pelas ruas do Jardim do Mar, onde resido. Adoro correr nas ruas, mas nada melhor que o revezamento com a ergométrica, exigindo de mim mesmo um pedalar forte. São exercícios apenas aparentemente iguais, por isso, se completam.
Especialistas, a diferença
Voltando ao Roda Viva, ainda estou tentando metabolizar as razões do distanciamento conflitivo do tom daquelas duas entrevistas.  A explicação mais plausível é que Dom Odilo se submeteu a uma bancada de especialistas, vários dos quais em evidente rota de colisão com os pressupostos da Igreja Católica, enquanto Bruno Daniel Filho se viu diante de jornalistas que entendem muito pouco do caso Celso Daniel, porque o caso Celso Daniel não tem especialistas na Imprensa, exceto, desculpem a imodéstia, este jornalista.
Querem um exemplo demolidor? Quando Bruno Daniel Filho fala em tortura, está redondamente enganado. Ouvi os especialistas que participaram diretamente do caso e produzi a respeito textos densos sobre o que é uma coisa e o que é outra coisa, ou seja, o que é tortura no sentido coercitivo para a obtenção de alguma vantagem, e o que é tortura como especificação técnica de traumas provocados por uma execução físico-criminal, como é o caso que envolveu Celso Daniel. Esse é apenas um dos muitos buracos em que meteria a cabeça desinformada de Bruno Daniel Filho sem que ele possa dizer que estou a torturá-lo, porque a frase é apenas uma metáfora.
Os especialistas em religião não deram folga a Dom Odilo. O combate foi quase desrespeitoso. Alguns dos convidados bateram para valer em polêmicas da Igreja Católica. O crescimento McDonaldiano dos evangélicos, a pedofilia, as vítimas de estupros, o uso de preservativos, tudo isso e muito mais foram colocados ao representante católico com a incisiva força de argumentos consolidados e também com o tom pouco amistoso a ma autoridade eclesiástica. Com Bruno Daniel houve o tempo todo, ou quase o tempo todo, questionamentos quase reverenciais. Quando falta conhecimento, sobra ignorância, parente próximo de gentilezas vazias.
É por essas e por outras que quando me perguntam sobre o caso Celso Daniel -- e há sempre alguém, para meu desespero, a me questionar sobre o assunto, porque não consigo responder sem argumentar com base nas raízes das informações que detenho, e isso consome tempo, muito tempo -- e o que seria o destino de Sérgio Gomes da Silva caso vá a júri popular, fico realmente preocupado com o acometimento de uma tremenda besteira. A mídia, toda a mídia, uma mais que a outra, mas toda a mídia, cristalizou as mais estapafúrdias conclusões sobre a morte do prefeito de Santo André, eternalizadas na Internet. O derretimento das geleiras das idiotices que viraram verdades monolíticas é uma operação praticamente improvável. A condenação de um inocente seria compulsória, ou quase compulsória, apesar de todas as provas técnicas em contrário. Fermentou-se um ambiente social em que a razão perde de goleada para a emoção.
Quase hostilidade
Depois de ver e ouvir o que vi e ouvi enquanto consumia em pedaladas enérgicas mais de uma dezena de quilômetros sem sair do lugar, ali em frente ao aparelho de TV, enquanto o suor escorria em meu corpo inteiro, depois de ver e ouvir o que vi o que fizeram com Dom Odilo e com Bruno Daniel Filho, no Roda Viva, fiquei encafifado, para não dizer estupefato.
É verdade que a prática do jornalismo se deu de fato com Dom Odilo, apesar de alguns excessos verbais domesticados pela civilidade, mas aos telespectadores comuns o que transpareceu entre um programa e outro certamente foi a impressão de que o representante da Igreja cometera algum pecado capital. Já Bruno Daniel, leigo no caso Celso Daniel, assumiu uma postura de resgate da memória do irmão com o qual conviveu tão pouco nos 10 anos anteriores à morte e se beneficiou da baixa profundidade dos questionamentos, exceto das intervenções do coordenador da bancada, o jornalista Mário Sérgio Conti.
Possivelmente o grande erro dos produtores do Roda Viva no programa em que a estrela da noite foi Bruno Daniel Filho, uma estrela sem brilho, é verdade, tenha sido a seleção dos perguntadores. A bancada foi às compras de informações nos arquivos, tentou se preparar para transformar a entrevista em embate esclarecedor, mas, exceto Mário Sérgio Conti, deram mole demais ao irmão tardiamente arrependido, explicitamente preconceituoso, claramente discriminador e ingenuamente crente na possibilidade de estar abafando. Se Dom Odilo foi ao Roda Viva certo de que teria tratamento semelhante ao de Bruno Daniel, deu-se mal, embora tenha se saído muito bem.

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